A OBRA VISCERAL DE ARIANA HARWICZ

Em sequência à Vídeo-Resenha de Camila Nhary do romance MORRA, AMOR, a celebração do trabalho da escritora argentina Ariana Harwicz segue na coluna Narrativas e Depoimentos com um trecho de PRECOCE, novo lançamento da Instante, ainda em pré-venda. No último volume da Trilogia da Paixão, Ariana retoma o tema da maternidade ao narrar uma relação turbulenta e incestuosa entre mulher e seu filho, que perambulam indigentes, fugindo da polícia e de assistentes sociais. O livro aborda ainda outros temas cruciais como a imigração, o trabalho ilegal e o racismo na Europa rural contemporânea. O romance já foi elogiado no blog Página Cinco e no jornal Rascunho.

Meu corpo está aqui, minha cabeça acolá, lá fora uma coisa se debate como um engulho. Ainda de noite, dois pássaros se alçam violentos da minha árvore e, ao se estatelarem, se matam entre si. Vejo se ele me escreveu. Tinha dormido com um olho aberto e espiava de tanto em tanto. O fogo pega, enfiei duas madeiras úmidas e ocas e fiquei com a cabeça lá dentro até que acendeu. A sala se encheu de fumaça. A fotografia de papai e mamãe sobre o fogão. Sonhei ou sonho com flores de tremoço, as flores saem de diferentes espigas brancas, lilás, rosa, e depois começam a aparecer vagens e sementes. Acordei. Passos na escadinha, quatro patas se lançam em queda livre até minhas pernas. Fico em frente à janela vedada e durmo com a mão aberta em cima do gato. O filho desce despencando pelos degraus. Tem sangue nos joelhos e me chama. Mamãe. Mamãe. Estou acordada na cadeira de balanço a dois passos da escada mas de olhos fechados. O fogo já não existe. Preciso procurar com o que lhe esfregar os joelhos e consolá-lo mas não consigo me mexer. A imagem de uma jovem como vacas brancas me empurrando por trás da janela vedada fazendo força para entrar com esporas. Uma mulher javali rompendo o cerco para investir contra mim, essa outra que me deixa à beira dos gradis. Onde é que tem álcool, pergunta o garoto, madame, onde é que tem álcool, perguntam os trabalhadores ilegais debruçados em suas cabines, está sangrando em cima das pedras, dona. Com o frasco limpo a ferida e pego meu filho no colo. Mas é comprido demais, crescido demais e me passa. Subo a escada com seus pés pendurados e, balançando, o deixo cair um pouco antes de chegar. Não consigo mais te carregar, grandalhão, seu corpo é o dobro do meu. Enquanto se veste de costas para mim, olho do alto as pedras com pintinhas claras entre as pedras brancas. Entramos no carro amassado e vou embora, o ponteiro no máximo, ele enjoado por causa da velocidade. A porta fechada do liceu, batemos e gritamos como dois desajustados, a bedel olha feio para nós através do vidro, acostumada, abre, ele desaparece pelos corredores. Sempre penso que sai pelo outro portão para matar aula.