As amigas Célia e Ondina, duas vizinhas septuagenárias, são vizinhas num edifício em Copacabana, no Rio de Janeiro. Vivem um cotidiano agitado, numa idade em que se espera que as pessoas tenham medo do tédio, da morte e de que mais nada de bom aconteça. Célia não teve filhos, está aposentada, e, com uma perda de audição progressiva, aguarda o desfecho de um processo trabalhista para tentar mudar de vida. Já Ondina é atriz veterana, leciona teatro na universidade e se vira como pode para fechar as contas no fim do mês. Certo dia, ao pagar o veterinário de sua cachorrinha, ela descobre que as economias que conseguira guardar foram usadas sem seu consentimento por sua filha Fábia, que mora em Berlim.
Mesmo diante da solidão, da dificuldade de criar vínculos depois da fase de formação, dos problemas financeiros, das consequências de ter ou não tido filhos e das questões de saúde, Ondina e Célia nunca cedem aos estereótipos que a sociedade impõe à velhice. Elas provam que todos nos sentimos jovens diante da novidade. Cada uma com suas manias, as duas amigas conquistam os leitores com um carisma inabalável. Para Veronica Stigger, que assina a orelha da edição, elas “são tão vivas que temos a impressão de conhecê-las de algum lugar”. Esse é o trunfo da escrita de Júlia Portes, romancista, dramaturga e atriz que maneja a linguagem e a dramaticidade do cotidiano com sensibilidade ímpar. Há no romance um olhar cênico e um humor delicado que tornam impossível não nos afeiçoarmos às personagens e ao cerne da trama.