CUNHAMBEBE CURTE A CARA DE HANS STADEN

Autor de A ORIGEM DA ESPÉCIE, ensaio literário que investiga o mito do roubo do fogo, recém-lançado pela Record, Alberto Mussa divide conosco o trecho de “A verdadeira história dos selvagens, nus e ferozes devoradores de homens” (Dantes, 1998) que considera o mais importante em toda a obra de Hans Staden. Brilhantemente, Mussa interpreta e ensina que “na resposta de Cunhambebe à pretensa lição moral do arcabuzeiro alemão estão prefigurados os fundamentos do que mais tarde se chamou ‘multinaturalismo’ ou ‘perspectivismo’, a maior contribuição brasileira ao pensamento antropológico internacional. E revela também, essa resposta, que os tupinambás e outros povos brasílicos não se deslumbraram tanto com os invasores, como muitos jesuítas quiseram fazer crer: Cunhambebe, com uma ironia anacronicamente machadiana, ri de Hans Staden.”

“Cunhambebe tinha diante de si uma grande cesta cheia de carne humana. Naquele momento, ele estava comendo a carne de um osso, que segurou defronte ao meu nariz, enquanto perguntava se eu também queria um pedaço. Respondi: ‘Mesmo um animal irracional raramente devora os seus semelhantes, por que então um homem iria devorar os outros’? Deu uma mordida e disse: ‘Jau ware sche – sou um tigre, isso está gostoso’. Então deixei-o.”