EM DEFESA DO FAZER HISTÓRICO

Mary Del Priore escreveu um documento de leitura altamente recomendável e urgente em defesa da boa prática de pesquisa histórica.
“Quando anunciei aos meus confrades da Academia Paulista de Letras que, junto com o historiador e professor Gian Mello, estava lançando uma coletânea de especialistas intitulada História das mestiçagens no Brasil, um deles me felicitou “pela coragem”. Seria cômico se não fosse sério. Afinal, trata-se de um livro escrito por historiadores sobre uma evidência de nossa formação social: somos, como indivíduos e como cultura, uma sociedade profundamente mestiça. Desde os primeiros séculos, encontros, conflitos, deslocamentos, casamentos, concubinatos, alianças e violências misturaram populações, costumes, crenças, palavras, comidas e formas de viver. Estudar esse processo não significa celebrá-lo nem condená-lo. Significa fazer História.
Mas meu confrade tinha razão. Foi preciso coragem para suportar insultos, palavrões e até ameaças físicas que nos levaram a solicitar à Editora Unesp a presença de segurança no lançamento do livro na Bienal de São Paulo. Coragem também tiveram os autores que aderiram à coletânea sabendo que poderiam enfrentar, dentro de seus próprios departamentos, maledicências, boicotes e até convites para se retirar de grupos de pesquisa. A resposta dos leitores foi outra: o livro esgotou-se em menos de três dias. A violência e as tentativas de silenciamento não conseguiram sufocar a curiosidade de milhares de pessoas interessadas em conhecer um tema que pertence à história de todos nós.
Quando anunciado nas redes sociais, porém, o livro foi arrastado pela mesma intolerância que acabamos de assistir no episódio envolvendo um aluno de História de um dos mais tradicionais centros de pesquisa, o IFCS da UFRJ. Uma instituição de onde saíram grandes pesquisadores, entre eles notáveis especialistas em escravidão, como o saudoso Manolo Florentino, que tanto explicou nossa mestiçagem. O episódio revela, para além de suas implicações policiais, um problema que deveria preocupar todos nós: o enfraquecimento do próprio ofício do historiador.
A História, que viveu extraordinária expansão entre as décadas de 1980 e 1990, perdeu espaço e prestígio. Teses encontram dificuldades para chegar às livrarias. Traduções de grandes obras estrangeiras, outrora disputadas pelas editoras, rarearam. Arquivos municipais e estaduais sobrevivem com recursos insuficientes. O IHGB, fundado em 1838 e durante quase dois séculos uma das grandes casas da memória brasileira, enfrenta dificuldades. Professores do ensino público e privado relatam o esforço para entusiasmar os alunos por uma disciplina que deveria ajudá-los a compreender o mundo em que vivem.
Enquanto isso, a internet fabrica, da noite para o dia, falsos especialistas e influencers dispostos a transformar o passado em frases de efeito. Filmes e novelas arrancam acontecimentos de seus contextos. Nas redes sociais, anacronismos circulam como verdades históricas e opiniões se apresentam fantasiadas de conhecimento. Até o jornalismo, pressionado pela velocidade da informação, nem sempre encontra tempo para buscar as raízes históricas dos acontecimentos que noticiam. E assim mitos, simplificações e falsidades ganham a velocidade de um clique.
Talvez tudo isso me doa especialmente porque sempre fui apaixonada pela História. Deixei a carreira acadêmica para escrever livros de divulgação, convencida de que nosso ofício não termina nos departamentos universitários. Ele começa de novo quando conseguimos despertar num leitor o desejo de conhecer aqueles que vieram antes dele. Por isso me pergunto o que pensarão os pais de nossos alunos ao ver estudantes e futuros professores de História admitirem a violência como forma de silenciar aquilo de que discordam. Que História ensinarão amanhã? Haverá assuntos proibidos? Temas dos quais será melhor não falar? Documentos que não deverão ser lidos porque suas conclusões desagradam? Deixaremos de estudar como o Brasil se tornou mestiço porque a palavra “mestiçagem” incomoda determinados grupos?
Mais inquietante ainda é o silêncio dos próprios historiadores. Professores em atividade ou aposentados deveriam ser os primeiros a se insurgir quando a violência invade o espaço que deveria pertencer à pesquisa, à crítica, à controvérsia e ao argumento. Pois, a História, como disciplina intelectual e memória coletiva, é justamente uma arma contra a violência. E, no entanto, assistimos à paradoxal transformação da própria História em vítima, no sentido figurado e, agora, no sentido literal.
Precisamos lembrar que onde a violência simplifica o mundo numa luta entre bons e maus, a História restitui nuances. Onde a propaganda fabrica inimigos, ela pergunta quem os fabricou e por quê. Onde o ódio desumaniza, ela devolve nomes, rostos, circunstâncias. Onde uma versão única pretende se impor, ela abre arquivos, confronta documentos, compara testemunhos e multiplica perspectivas. A História nos ensina a reconhecer os primeiros sinais da violência coletiva: a desumanização do adversário, a transformação da diferença em ameaça, a polarização sem saída, a crença de que certos fins justificam quaisquer meios. Conhecer esses mecanismos não garante que sejamos capazes de evitá-los. Mas ignorá-los nos torna muito mais vulneráveis a eles.
É justamente aí que o conhecimento histórico oferece algo de que as redes sociais nos privam: distância. O passado nos obriga a sair do instante, a desconfiar da reação impulsiva, a perguntar de onde vieram as palavras, os gestos e os ódios que parecem ter nascido naquela sala de aula. Ele nos ensina que nada começa hoje. Mas a História, sozinha, não basta. Para se tornar um verdadeiro anteparo contra a barbárie, precisa caminhar ao lado da educação cívica, da cultura, da liberdade de investigação e, sobretudo, do diálogo. Mal ensinada, falsificada ou submetida a interesses ideológicos, ela própria pode se transformar em arma. Bem praticada, faz exatamente o contrário: ensina a duvidar das certezas fáceis, a conviver com a complexidade e a substituir o punho pelo argumento.
Talvez seja essa a coragem de que meu confrade falava. Não a coragem de escrever sobre mestiçagem, pois historiadores não deveriam precisar de coragem para estudar um fato histórico. A coragem necessária hoje parece ser outra e muito mais elementar: defender o direito de pesquisar, discordar, argumentar e conhecer o passado sem medo. Quando historiadores precisam de proteção para lançar um livro e um estudante precisa de proteção para expressar uma ideia, não são apenas eles que estão ameaçados. É a própria História que começa a sangrar.”