EXÍLIO E PERDA DA LÍNGUA MATERNA

A coluna de Narrativas e Depoimentos traz o prefácio de um impressionante romance, certamente ainda inédito e sem editor, cujo autor passou a integrar o catálogo de clientes da VB&M nesta semana. O livro atende pelo título provisório de A ÚLTIMA FATIA DE LIBERDADE, narrativa autobiográfica de Gabriel Waldman, escritor nascido na Hungria em 1938. Judeu, Waldman perdeu quase toda a família durante a Segunda Guerra Mundial. Sobreviveram ele e sua mãe, que, depois de vivenciarem o domínio comunista na Hungria, fugiram para o Brasil, onde Waldman perdeu o idioma húngaro, ganhou o português e naturalizou-se brasileiro. Em A ÚLTIMA FATIA DE LIBERDADE, o protagonista é um pintor húngaro exilado no Brasil que, ao consumir um elixir alucinógeno, revisita toda sua trajetória, marcada pelos regimes nazista e comunista, pela amputação da língua materna e pela dificuldade com o português, além de seus relacionamentos amorosos com quatro mulheres de forte têmpera. O romance é narrado em fluxo de consciência a meio caminho entre realidade e ficção, mergulhando numa reflexão profunda sobre o tempo, as memórias e a perda da individualidade.

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PREFÁCIO

Este livro não é uma autobiografia. Pura ficção também não é. Sobra, portanto, aquela área nebulosa da literatura que se chama “pseudobiografia” ou, com alguma agressividade, “falsa biografia”.

Fugi da Hungria comunista aos onze anos de idade com minha mãe empurrando-me pela floresta, como a personagem Natasha deste livro, que empurra o pseudo-eu Marci. Lembro de mim cansado: a caminhada era longa e faltava-me motivação para continuar. Ponto para a biografia. Ao contrário de Marci, não sei pintar nem ganhei o Prêmio Lenin. Empate biografia x ficção. A mais injustiçada da história é minha mãe. Pacata senhora de classe média, de índole nada a ver com a sensualidade efervescente da mãe de Marci. Ou tem a ver? Não sei e é melhor assim. Sexo e mãe não combinam e qualquer alusão a respeito “é capaz de secar as gônadas do filho”. O destino que a ela reservo no livro (pura ficção) tem, provavelmente, muito a dizer sobre o abismo sombrio do meu caráter freudiano. 

Com um pouco de empolgação, e tomando de empréstimo a linguagem da floricultura, diria que o “buquê”, o conjunto floral do livro, é biográfico, enquanto a exuberância das flores e das pétalas individuais constitui a ficção. Entretanto, conceitos formais perdem relevância no final, quando o livro literalmente (ainda bem!) implode junto com suas personagens, o enredo e o próprio autor. Espero apenas que o leitor saia ileso da hecatombe geral.

Depois da guerra, com o Exército Vermelho ocupando o país, havia inicialmente partidos políticos de várias tendências coexistindo em clima de liberdade e eleições razoavelmente livres, exibindo para o ocidente uma miragem que em nada lembrava a antiga repressão nazista. Mas, depois, enfastiados com o método moroso, os comunistas rasgaram a fantasia incômoda e apoderaram-se da Hungria fatia por fatia (tática de salame), cortando (eles usariam a elegante expressão “podando”) partidos e liberdades. Minha mãe contou que a última fatia de liberdade tolhida que a fez decidir-se pela fuga ocorreu quando, no meu boletim, na única matéria em que eu tirava sempre nota máxima — História — constava apenas nota mediana. Na reunião de pais e mestres, ela questionou o professor, que confidenciou: “Minha senhora, lamento. Decisão do Partido: filho de burguês só pode tirar até nota mediana.” Adeus faculdade no meu futuro.

Em vez disso, adeus Hungria. Depois da fuga, viemos para o Brasil, o único país que nos aceitou, fiel à narrativa do livro. Os demais países não aceitavam mulher como arrimo de família (meu pai havia morrido na guerra) e, portanto, nos negavam visto de entrada. (Ponto a favor do Brasil contra o machismo desbragado da época.) Bendito Brasil! 

A figura do SS no livro é mais complexa. Depois da guerra, conheci uma família alemã. O marido fez sólida carreira sempre na mesma empresa. Os filhos adoravam o pai, amoroso e dedicado. Nas ocasiões em que frequentava a casa deles, encontrava um ambiente aberto, opinativo, tolerante a todos os pontos de vista. Soube depois que o marido fora preso como criminoso de guerra. Ele comandou um dos mais notórios campos de extermínio do nazismo.

Procuro devassar a sua mente. Como conciliar as duas vidas simultâneas? Das oito da manhã às seis da tarde trucidar crianças e, das seis da tarde em diante, contar as travessuras de Fritz und Franz para os próprios filhos à beira da cama?  

Imagino escutar a sua voz: “Detesto a minha profissão. Sou obrigado a persistir a fim de prover a família. Mas não, por favor, não sou nenhum psicopata. Pergunte à minha família e aos meus amigos sobre meu caráter verdadeiro fora do trabalho. É o que conta. O resto é lamentável dever de ofício.” Ele dependia da família como fiadora da sua sanidade mental!

Esta passagem da minha vida molda o SS no livro, também com dupla personalidade: o assassino brutal e onipotente durante a guerra e o humilde, arrependido vendedor de gravatas depois. 

Não existe inocência na guerra. Os crimes podem ser dolosos ou culposos, mas são sempre crimes. Com o passar do tempo, a vivência do instante (o que de fato aconteceu) é engolida pela História, que é o faz de conta daquilo que gostaríamos que tivesse acontecido. É quando se manipula a memória que se alivia ou se confirma a culpa. Irrompe a figura do “evento colateral”. Os perpetradores da bomba atômica em Hiroshima falam em cem mil “vítimas colaterais”. O comandante de campo de concentração repete o refrão “eu apenas administrava o campo; cuidava da ração, do encanamento, da ordem.” (Só faltava falar no suprimento de gás.) “Não matei ninguém.” Mais vítimas colaterais. Nomina sunt omina, diziam os filósofos medievais. Evitando as palavras contundentes “mortos” ou “vítimas” e recorrendo-se ao insípido e neutro “colateral”, alivia-se a culpa. O “hediondo” se dilui no “inevitável” e o “responsável” no “acidental”. Na farmacologia, o anestésico alivia as dores do corpo. Na linguística, uma palavra mágica como “colateral”, as da alma. O preço, porém, é alto. Como ficariam Dostoievski e sua obra sem as angústias existenciais que os atormentavam? Parafraseando Graham Greene no livro O terceiro homem: “A Itália, em quatrocentos anos de guerras fratricidas contínuas, produziu Leonardo da Vinci, Michelangelo e Maquiavel, entre muitos outros gigantes. E os suíços, no mesmo período de paz e harmonia? O relógio cuco.” É preciso sofrer como no parto, rasgar a carne e a alma para constituir o ser humano em sua plenitude. No sofrimento, na culpa e nas realizações. 

Depois do nazismo, o comunismo. Sai de cena o judeu e entra o burguês como alvo do extermínio. Tudo para garantir um futuro melhor. Dizem que o pior assassino em série é o neto. Em seu nome e proveito sacrificam-se as gerações presentes.

Sobram farpas também para a crise cultural no Brasil. Quantidade gera qualidade. Pelé é fruto de centenas, milhares de jovens engajados em futebol. Onde estão as publicações e autores que um dia possam redundar num possível candidato ao Prêmio Nobel ou outro equivalente? Com a crise editorial que ceifa gerações de talentos, para publicar um livro só se for, num dia distante, em Fobos, planeta de Saturno. Até lá, só bestseller importado, autoajuda ou esoterismo. Triste destino de um país que não sabe prestigiar sua língua.

O caráter autobiográfico domina este livro, em especial nos trechos que versam sobre a língua húngara. A sua gradual, porém irredutível, perda lembra a vivência do amputado que sente o membro como se ele ainda existisse, mas sabe que ele não existe mais. A apoteose desta dualidade ocorre quando a personagem Eudóxia desafia Marci a dizer algo em húngaro. Os dois amputados, autor e personagem, mergulham nas profundezas da consciência à procura do menino que reside lá na sua infância e que recita, ainda hesitante, ainda trôpego, ainda decoreba, a lição de casa — o poema Fim de Setembro, de Petofi, poeta maior da língua húngara. Voltam à superfície angustiados, inseguros, e a personagem Marci passa a recitar os versos. Tudo em tempo real. E o sotaque? E o ritmo? E a fluência? No final, a personagem sorri satisfeita (ele responde apenas pelo instante em que recita a obra). O autor nem tanto. Ele é o protagonista de um filme que só termina no fim de sua vida. Ele sabe — intui — que é apenas uma questão de tempo descobrir que aquele menino não existe mais e que sua lembrança cada vez mais desfocada e, pior de tudo, muda, é apenas reflexo de suas saudades. A estátua do Poeta Desconhecido afinal tem razão. Experiência não lhe falta. Ao longo dos séculos, ele se despediu ranzinza, mal-humorado, de incontáveis fugitivos diante de tártaros, turcos, austríacos, alemães e agora russos. Marci é o triste epítome de todos estes fugitivos.

Pura teimosia isto de ser húngaro!