LIÇÕES DA JORNALISTA PARA A ROMANCISTA

Anna Luiza Cardoso

Quem Conversa Com (A)Gente hoje é a escritora Fabiane Guimarães, cujo primeiro romance, APAGUE A LUZ SE FOR CHORAR, acaba de sair pela Alfaguara e cuja representação temos o prazer de anunciar. Jornalista de formação e escritora de coração, Fabiane tem um estilo de escrita muito próprio, em que mistura suspense e mistério com reflexões profundas sobre as dores da existência. Seus personagens refletem os medos e as angústias da juventude e vivem fora do eixo das principais capitais brasileiras. Neste bate papo, ela fala sobre sua estreia, sobre a experiência de ser publicada por uma grande editora, sobre suas perspectivas, referências e os novos projetos. Em comum a todas as ideias, o olhar crítico e sensível à experiência de ser mulher no Brasil contemporâneo. Sua maior esperança? A de que “a nossa literatura possa ser, finalmente, um reflexo da nossa sociedade: completamente diversa”.

VB&M: APAGUE A LUZ SE FOR CHORAR (Alfaguara) é seu primeiro romance, uma história sobre as perdas, desilusões e reconstruções da vida adulta. De onde veio a ideia da história?

FG: O embrião da ideia veio de um desejo antigo: escrever um suspense que não fosse apenas cheio de intrigas, personagens duvidosos e revelações surpreendentes no final. Eu queria homenagear a estrutura do mistério, um gênero do qual sou completamente fã, mas com uma história que despertasse também reflexões importantes sobre o luto e a morte. A história da Cecília me surgiu inteira, assim como sua relação com os pais, com esse casal devoto que na verdade era repleto de segredos. Quero dizer, quão bem você conhece seus pais? Quais são as narrativas que eles nos deixam de herança? E como é possível crescer sob a sombra de mentiras, buscando um sucesso inalcançável, fabricado em outra época? A trama do João e a sua busca incansável por um futuro para o filho veio depois e se acoplou à história muito naturalmente. É um livro cheio de dualidades.

VB&M: Como foi estrear no romance por uma grande editora? Como se deu todo o processo da edição?

FG: Sobre estrear por uma grande editora: nem nos meus sonhos mais extravagantes eu esperava por isso. Parece algo como um golpe de sorte ou um milagre, mas a verdade é que isso é o fim de uma longa busca, produto de uma persistência que nem sei de onde veio. Colecionei muitos “nãos” antes de ser abraçada pelo selo Alfaguara, desisti de desistir várias vezes. Sou muito grata a todos os profissionais da Companhia das Letras e à minha editora em particular, Luara França, que tiveram um esmero carinhoso com o livro do começo ao fim. Tudo foi lido, relido, aparamos arestas, precisamos deixar o filhote de molho, retomamos o processo. O livro então nasceu e é mais lindo do que eu poderia ter sonhado.

VB&M: O quanto de você tem nos personagens de Cecília e João?

FG: As neuroses da Cecília são completamente minhas. Acho que foi a única personagem que eu já escrevi com traços autobiográficos tão fortes e intencionalmente plantados ali. Ela é medrosa, ansiosa, insegura, alimenta a paranoia para não precisar lidar com a vida real. Ela se sente um fracasso (como muitas vezes eu me senti). A Cecília dialoga não apenas com quem eu era quando escrevi esse livro, mas com milhares de jovens adultos que certamente lerão esse livro com outros olhos. No caso do João, o personagem surgiu completamente inventado, colhido das “névoas da imaginação”. Um sujeito sem moral, que não se acanha diante do ridículo, brutal mas ao mesmo tempo afetuoso. Nossa, eu amo o João. Ele tem a coragem que falta na Cecília (e em mim).

VB&M: Você é jornalista de formação, então a escrita faz parte do seu ofício. Como foi essa transição para a literatura?

FG: Na verdade, foi o contrário. Eu sempre escrevi, desde criança, mas como não havia jeito de ser escritora, a saída foi ser jornalista (para pagar as contas). A literatura sempre esteve ali. O jornalismo é que veio depois, como um amante pelo qual acabei me apaixonando. Mas a experiência que tive como repórter de jornal mudou muito minha visão de mundo e meu jeito de escrever literatura. Com o jornalismo, aprendi a ter objetividade, concisão, a domar as figuras de linguagem. E o mais importante de tudo: aprendi a ouvir as pessoas. A fazer recortes de suas histórias, iluminar suas digressões. Tive a oportunidade de entrevistar pessoas incríveis, a maior parte delas anônimas, como um dos últimos combatentes brasileiros vivos da 2ª Guerra Mundial, um veterano pracinha que se orgulhava do uniforme mas achava a guerra um desperdício; ou quando escutei uma velhinha rubro-negra, no auge do Alzheimer, dizer que era incapaz de se esquecer do Flamengo. Muitas das histórias que habitam meu imaginário vêm dessa época e da poesia que eu enxergava nessas vidas comuns que caíam nas minhas mãos. Mais tarde, como editora de jornal, aprendi a cortar as palavras. A me livrar dos excessos. Tanto que hoje sou bem boa em me auto-editar, rasgar tudo e começar de novo. Jornalista aprende a desapegar do texto. Foram lições muito importantes.

VB&M: Como autora estreante, como você vê o mercado editorial e o ambiente literário brasileiro?

FG: Eu não sei se posso falar sobre isso com propriedade mas, da minha perspectiva, é evidente que existe um gargalo entre as grandes editoras pelo qual poucos escritores brasileiros iniciantes passam. É aquela história de ter que apresentar um currículo para um trabalho que nunca se teve oportunidade de exercer. Mas, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas formas de publicar. Seja por editoras independentes que fazem trabalhos belíssimos, como a Moinhos, ou com edições de autor caprichadas, ou mesmo pelas próprias editoras de renome, que têm se mostrado mais abertas a novos talentos, mesmo na crise. Os autores agora têm nas redes sociais uma ferramenta de ouro para conseguir catapultar o próprio trabalho e há quem observe isso.

Acho que o mercado literário como um todo está se reinventando e se adaptando aos novos tempos, deixando que outros discursos tomem conta da pauta, o que tem frutificado em belíssimas obras publicadas por autores negros e negras, por mulheres, por forasteiras como eu, que furam a bolha do famoso eixo Rio-São Paulo. Sim, não é um exagero ou mesmo uma ofensa dizer que a literatura brasileira foi e ainda é um pouco elitista. Mas vejo esperança de que ela esteja deixando de ser. Normalmente, em qualquer outro assunto da vida, eu tomo as rédeas do niilismo ou do pessimismo completo. Aqui eu acredito que exista esperança de que a nossa literatura possa ser, finalmente, um reflexo da nossa sociedade: completamente diversa.

VB&M: Quais as suas perspectivas com relação à carreira de escritora? O que você pretende levar ao leitor com a sua obra?

FG: Ficar rica e famosa (risos). Brincadeira! O que eu realmente gostaria é de poder continuar escrevendo, sobreviver à selva de páginas e eventualmente tirar minha sobrevivência apenas do fazer literário. Acho que eu tenho muito a oferecer, muitas histórias e muitos bons sentimentos. Eu quero levar aos leitores e leitoras a mensagem de que os livros bons são aqueles que ressoam por dentro. Não importa se é um livro curto, um livro com muitos diálogos, se o livro carrega o peso de um galardão literário ou se é vendido como literatura de botequim. Essas categorias ficam difusas quando o que a gente precisa é ler e gostar do que leu. O que eu gostaria de entregar, se for possível, é o que eu mais amo como leitora e escritora: uma literatura envolvente, com trama, gancho e plot twist, sim! Daquelas de virar a noite lendo. Mas também uma literatura bem escrita, bem aparada, uma prosa que às vezes soe poética, na justa fronteira do permitido. Uma literatura que tenha história e, justamente por isso, comova.

VB&M: Todo escritor é, antes de tudo, um grande leitor. Quais são as suas influências literárias?

FG: Como grande parte das pessoas da minha geração, quem abriu o portão das letras foi Harry Potter. Mais tarde, quando estava no caminho de formar minha identidade literária, eu entendi quem eu queria ser. Foi o meu xará de sobrenome Guimarães Rosa que me mostrou que era possível transplantar o sertão para a literatura, e ler seus diálogos cantados, sua prosa inventada, foi uma inspiração enorme para entender que minhas histórias precisavam falar sobre o meu povo. Nada de livros ambientados na praia ou na caótica Avenida Paulista, para mim. Hoje, minhas inspirações são quase todas mulheres. Isabel Allende me ensinou a dar brilho às histórias que atravessam o tempo. Com Alice Munro aprendi um novo jeito de construir universos (e mudei a forma como eu escrevia contos). Com Inês Pedrosa tive algumas lições sobre escrever com o coração na ponta dos dedos. Andrea Del Fuego me ensinou que as brasileiras também têm o direito ao sonho e ao realismo mágico, Adriana Lisboa me inspirou no seu jeito híbrido de fazer pro-esia. No caso do suspense, a francesa Fred Vargas me mostrou que os livros policiais e os enigmas não precisam ser apressados e que podem até ser bonitos. Há muitas outras referências para mim: Jennifer Egan e seu maravilhoso “A visita cruel do tempo”, Elizabeth Strout e seu impecável “Olive Kitteridge”, Dickens e sua aula narrativa em “David Copperfield”, Tolstói e tudo o que ele escreveu. Enfim, todo livro bom que eu leio é uma inspiração de alguma forma.

VB&M: Você já tem um novo romance engatilhado? Já pode falar um pouquinho sobre o que está escrevendo?

FG: Tenho trabalhado em um romance, já em fase final, que me deixou obcecada. Comecei em 2019 e terminei no meio da pandemia, em 2020. É a história de uma mulher que foi barriga de aluguel para vários casais, narrada por uma jornalista que enfrenta seus próprios demônios. Também considero um suspense dramático. Tenho também outro romance finalizado, “Temporada de incêndios”, sobre um feminicídio visto pela ótica de um pai que busca vingança. Além disso, tenho flertado com a ideia de escrever uma ficção científica que se passe no Cerrado. A minha criatividade está bombando com os últimos eventos surreais que têm acontecido (e me dado dor de cabeça).