O LADO SOMBRIO DA MORAL

Previsto para o início de 2023 na Alemanha, o lançamento de A INVENÇÃO DO BEM E DO MAL: UMA HISTÓRIA MUNDIAL DA MORALIDADE, do filósofo Hanno Sauer, promete agitar o mercado de não-ficção do país. O livro já está sendo disputado em leilão na Holanda, onde o autor leciona na Universidade de Utrecht. Fruto de extensa pesquisa histórica e científica, numa linguagem cativante, o ensaio traça a história da moral e da ética desde os primórdios da humanidade há 5 milhões de anos e afirma que, apesar de todos os dilemas, guerras e contradições, a espécie humana tem sim valores fundamentais compartilhados por todas as civilizações desde o início dos tempos até hoje. Para esta Conversa Com (A) Gente, Yasmin Ribeiro traduziu a esclarecedora entrevista do autor para a agência Michael Gaeb, em que ele fala sobre seu processo de pesquisa e escrita e defende a crença nos princípios morais apesar da recorrente violência contra a democracia. Para ele, a maior lição que a história da moralidade pode oferecer é que “todos os princípios e valores morais têm um lado sombrio: o castigo pode nos tornar mais cooperativos, mas também cruéis; a hierarquia pode ajudar a construir a civilização, mas também leva à opressão e destituição; cooperação nos torna mais amigáveis, mas também nos faz ver o mundo em termos de grupos opostos, ‘nós’ e ‘eles’.” O livro de Sauer mostra o caminho da sensatez para a superação dessas contradições históricas e da crise moral do presente.

MGA: Você poderia dizer brevemente sobre o que é o seu livro?

HS: Meu livro é sobre nossas regras e valores morais mais importantes, porque são aquilo que nos permite viver juntos. É sobre quem somos e de onde viemos. Em sete capítulos — começando há 5 milhões de anos, e então 500 mil anos, 50 mil, 5 mil, 500, 50 e, por fim, cinco anos atrás —, o livro descreve, de uma perspectiva filosófica mas com dados científicos, as principais transformações morais pelas quais passamos ao longo do curso da história: desde a evolução da cooperação ao desenvolvimento da punição e a emergência da desigualdade ao despontar da modernidade. No final, a meta é fornecer um diagnóstico do nosso tempo que nos ajude a entender e — se possível — superar a crise moral do presente.

MGA: Há algo como valores universais ou princípios morais que unam toda a humanidade?

HS: A resposta curta é: sim. É uma questão interessante em si mesma pensar por que tantas pessoas achem tão difícil aceitar essa afirmação — que há valores humanos universalmente compartilhados. Em minha experiência, meus alunos ficam felizes em aceitar as ideias mais improváveis, estúpidas e ofensivas, só em nome do debate. Não deveriam ser eliminadas fronteiras ou governos? É imoral ter filhos? Deveríamos doar todo o nosso dinheiro para os pobres? Sem problemas. Mas quando você lhes pede para não mais que considerar a possibilidade de que talvez haja valores morais humanos fundamentais, eles se escandalizam e se recusam a aceitar. Isso não muda o fato de que há evidências empíricas extremamente rigorosas que sustentam essa afirmação. Só que pouquíssimas pessoas sabem disso! No nível fundamental, todos os seres humanos, em todas as épocas e culturas, têm seguido os mesmos valores básicos: todos nós valorizamos a liberdade, segurança, prazer, justiça e benevolência. Mas temos priorizado e implementado esses valores de formas muito diversas, e meu livro conta a história de como o formato desses valores mudou, dependendo do tipo de sociedade que construímos, suas instituições, tamanho, economia e tecnologia.

MGA: Como você pensou no tema do livro?

HS: É difícil ignorar que algo mudou: nós temos experimentado um aquecimento extremo do discurso social nos últimos anos. Questões sobre identidade, desigualdade social, cultura, origem e pertencimento têm sido levantadas com nova urgência. Eu queria entender melhor — e ajudar outros a entender também — como isso aconteceu, como nós queremos viver juntos no futuro, como podemos encontrar novamente um senso comum apesar das diferenças, e como construir uma boa relação. No processo, entendi que, para resolver esses problemas, há que se entender primeiro suas origens. Afinal, estamos vivenciando apenas um momento da humanidade. Para compreender completamente esse momento, deve-se primeiro conhecer sua história.

MGA: Estamos testemunhando o quanto a democracia tem tido que lutar, cada vez mais, para sobreviver, enquanto a violência brutal está em ascensão. Ainda podemos acreditar em moralidade?

HS: Não conseguimos evitar, porque somos seres morais de cabo a rabo. E nossas morais sempre têm um lado sombrio. Essa é uma das principais lições do livro: a emergência da cooperação nos fez ajudar um ao outro, mas também nos fez dividir o mundo entre “nós” e “eles”. A vida em grupos maiores fez de nós, por um lado, seres pacíficos, que por outro podem punir com extrema crueldade. O desenvolvimento da desigualdade social trouxe novas riquezas, mas também escravidão, opressão e miséria. As mudanças que observamos agora, da luta contra o autoritarismo à polarização social, são todas moralmente motivadas. Há desentendimento sobre a forma como vivemos juntos, como será o futuro das nossas sociedades. Quais valores e regras deveriam se aplicar a nós? Não há tópico político e social mais importante do que esse agora.

MGA: Você tem um objetivo específico com seu livro? Qual é o assunto central de tudo isso para você?

HS: Eu queria escrever um livro que preenchesse com vida as teorias e os conceitos filosóficos: com lugares, imagens, eventos e pessoas. Quando eu estava pelos meus 16 anos, queria escrever romances, mas então percebi que não tenho (ainda) nada a dizer. Então, primeiro, estudei literatura e filosofia. Me tornei um filósofo acadêmico, mas a vontade de contar uma história permaneceu. Além disso, filosofia acadêmica costuma fazer uso de uma linguagem mais sóbria, neutra, que é deliberadamente entediante e impessoal, quase anêmica. Minha vontade era escrever um livro que alcançasse um tom mais literário, que experimentasse com as formas, incorporasse leitmotifs e alusões, que não fugisse de ambiguidades e paródias — uma leitura prazerosa.

MGA: Seu livro abrange um arco incrivelmente amplo, começando há 5 milhões de anos e indo até os dias de hoje. O que o fascinou sobre essa ideia?

HS: De certa forma, não havia outro jeito: o que eu queria dizer só poderia ser dito dessa forma. De certa maneira, a história que você quer contar tem vida própria. No começo, pensei que isso poderia ser feito rapidamente — talvez em 200 páginas que escritas em um ano. Mas eu queria ver o que acontece quando você experimenta uma perspectiva mais ampla e respira fundo. Acabou que o livro ganhou mais algumas páginas, tive que explorar áreas completamente novas e pesquisar novas disciplinas, desde biologia evolutiva a teorias de desenvolvimento cultural, história da Suméria, antropologia comparativa, ciência cognitiva moderna e a história do século XX. Ao final, a coisa toda deveria contribuir para tornar o presente momento — isto é, a história dos últimos anos — compreensível. O que está acontecendo agora já teve seu início com a origem da humanidade há 5 milhões de anos. Meu livro conta — retrospectivamente — como tudo chegou a esse ponto.

MGA: O que a história da moralidade pode nos ensinar hoje?

HS: É sempre difícil extrair do passado lições para o futuro. Penso que a maior lição que a história da moralidade pode nos ensinar é essa: todos os nossos princípios e valores morais têm um lado sombrio: o castigo pode nos tornar mais cooperativos, mas também cruéis; a hierarquia pode ajudar a construir a civilização, mas também leva à opressão e destituição; cooperação nos torna mais amigáveis, mas também nos faz ver o mundo em termos de grupos opostos, “nós” e “eles”. Então, para qualquer ganho moral, qualquer instância de progresso, há uma perda correspondente, ou ao menos o potencial para retaliação e excesso. Até mesmo as piores ações e políticas têm uma motivação moral por trás. A moralidade é uma poderosa tecnologia social, mas, assim como todas as outras, pode ser abusada e distorcida, e precisamos estar atentos a essa possibilidade. O último capítulo do meu livro explica de onde vem a polarização moral e política, e que ela é muito mais superficial do que estamos inclinados a pensar. Desentendimentos políticos são mais uma questão de identidade do que de diferenças ideológicas profundas e robustas. Acho que o que vemos agora é que as pessoas estão começando a se cansar das implicâncias intermináveis e do extremismo. Há um desejo real pela sensatez e reconciliação, e meu livro explica como podemos caminhar nessa direção.