QUARENTENA A DOIS

Uma pequena joia do conto como gênero, “Com você eu tomo até o vinho do tempero”, de Martha Batalha, encerra a semana na coluna Narrativas do blog VB&M. Escrito para a áudio-série “Vai ficar tudo bem”, da Storytel, e publicado em texto pela primeira vez aqui neste blog, essa história curta da autora dos romances A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO e NUNCA HOUVE UM CASTELO, mostra – com profundidade e a clássica ironia de Martha – a trajetória de um casal de classe média em crise de relacionamento. A quarentena irá surpreendê-los.

*

Com você eu tomo até o vinho do tempero

Martha Batalha

É como ter a vida presa na imagem de uma Polaroid. Eu já tinha ouvido falar de alguns índios com medo de foto por isso, eles achavam que a imagem capturava a alma ou a vida. Aprendi na faculdade, numa eletiva de Antropologia que escolhi porque na classe só tinha mulher.

Na foto da minha prisão eu apareço sentado no sofá, lendo o jornal. Marília passa por mim com o rosto inclinado para o lado oposto e olhos fixos no chão, tentando negar a existência do ser humano imenso que sou, noventa quilos mal distribuídos na estrutura atarracada de antepassados multirraciais, braços estendidos na abertura das páginas do primeiro caderno, a massa ampla e compacta ressaltada pela moldura de almofadas vermelhas. No chão, entre a mulher de rosto virado e o homem escondido atrás do jornal, duas crianças se entretêm com blocos de plástico e madeira, peças esparsas de um quebra cabeça, bonecos, xilofone.

Era assim que eu me sentia quando a quarentena começou. Preso em um momento da vida, o que na verdade havia acontecido com o mundo. A humanidade tinha se transformado em bilhões de fotografias instantâneas que capturavam as idiossincrasias de cada pessoa ou família e confinavam a existência entre as margens de cada imagem.
A questão é que eu estava prestes a rasgar a minha Polaroid. Marília para um lado, eu para o outro, o corte protegendo magicamente as crianças brincando no chão. Estava pronto para exibir os resquícios da minha juventude em nova Polaroid, eu de sorriso amplo e braço em torno da mulher delicada que flanava na minha fantasia, toda vez que Marília exercia o que ela entendia como direito de me criticar.

Então veio a pandemia. Aconteceu do mesmo jeito que o Hemingway foi à falência: devagar, e de repente. As notícias sobre o vírus foram se apoderando sutilmente dos jornais, como se tivessem a intenção de contaminar as outras, de matar uma a uma até reinarem absolutas, e qualquer frase que não fosse sobre elas se tornasse inoportuna. E me vi trancado nessa Polaroid, as possibilidades limitadas aos pensamentos, o fardo se estendendo pela agonia dos dias sem rotina.

Se fosse para ficar trancado em alguma Polaroid, seria essa: Marília de cabelos longos, negros e ondulados, com saia comprida e blusinha de alça, mochila pendendo de um ombro e a mão direita brincando com o colar de couro. Eu de bermuda e camiseta, mochila pesada nos ombros e as mãos segurando as alças. Vamos um ao encontro do outro, sorrindo. No fundo da imagem está o verde da mata da PUC, jaqueiras, palmeiras, bromélias. É uma Polaroid peculiar, com o barulho do córrego no leito de pedras que atravessa a faculdade, os gritos da arara numa gaiola de ferro entre os prédios de pilotis, o cheiro de chuva e de planta molhada, dos pães de queijo cozidos a cada hora no Bar das Freiras. Seguimos de mãos dadas até sumir no meio dos outros que passam, figurantes.

Eu tinha 22 anos, estava no último ano do curso de Engenharia e fazia estágio numa empresa de terraplanagem. Ainda jogava futebol de botão com os amigos do prédio e tocava, muito mal, um cavaquinho. As marcas escuras de antigas espinhas começavam a clarear, as mesmas espinhas que, quando frescas, afastaram as meninas e limitaram meu conhecimento sobre as mulheres à pilha de Playboys no fundo do armário. Minha mãe já começara a dividir as etapas de um dia de acordo com as horas em que tomava os antidepressivos e ansiolíticos, os remédios da pressão, tiroide e enxaqueca, as vitaminas ABCD.

Marília também tinha 22 anos. Estava se formando em Letras e dava aulas num cursinho de Vestibular Comunitário. Gostei dela porque, primeiro, foi a única mulher que me deu bola naquela eletiva de Antropologia, segundo, não era feia, terceiro, ela tinha uma voz dengosa, que se parecia com um balanço de rede. Era uma falsa hippie, que morava com uma tia avó em Botafogo e às vezes visitava a mãe num sítio no pé da serra de Friburgo. Essa sim hippie de verdade, que criava galinhas, plantava quiabo e exibia no rosto de rugas profundas a descrença em protetor solar. O pai de Marília era um sueco chamado Boris que há 20 anos usava parte do salário de economista para pagar pelos estudos da filha. Ela não se lembra do rosto dele.

Quando eu penso naquela época, ou no desconforto que sentia nas horas longe de Marília, volto a ver minha mãe nas noites de domingo sentada de frente para a mesa de jantar, de camisola florida e cheiro de talco. Ela pressiona com as unhas foscas dezenas de cartelas de pílula. O plástico faz um ruído seco, o metal se parte e as pílulas quicam na mesa. Minha mãe organiza pequenos montinhos de cores e tamanhos diferentes em um porta comprimidos com vinte e oito compartimentos. Quatro para cada dia da semana, com os dizeres Manhã, Tarde, Noite, Adicional.

A memória tem esse jeito de livro infantil, de fazer com que tudo se pareça muito mais simples dentro dela. Penso naquela época e encontro um só motivo que me fez querer casar com urgência. Foi mesmo sangria desatada, um desarranjo dentro de mim que só Marilia podia curar. Aconteceu depois que minha mãe engoliu todas as pílulas dos 28 compartimentos com a ajuda de um copo de leite com Nescau.

Quando Marília chegou no velório era como se emanasse luz. Veio andando lá de longe pelo corredor e já olhando para mim junto ao caixão, apressou o passo quando estava perto da capela, largou a bolsa numa cadeira e só tirou os olhos dos meus quando estávamos abraçados.

– Você demorou – consegui dizer.

– Tinha trânsito na Voluntários.

– Achei que tinha me abandonado.

– Que ideia mais boba.

Logo depois a mãe dela chegou. Não estava com uma das calças largas com estampa de elefante que usava como uniforme. Veio com um vestido negro com manchas de guardado e carregava um buquê de azaleias. Ela me abraçou, e meu nariz encostou nos dez colares que serviam de amuleto, a bochecha ficou em cima das ombreiras com manchas de guardado. O cheiro sufocante de mofo misturava-se ao de perfume de patchuli.

– Como você está, meu filho? – Ela perguntou, os dedos com anéis baratos cobrindo as minhas bochechas. Fiquei feliz de ser chamado assim.

– Você me permite fazer uma prece?

Concordei com a cabeça. Cecília foi para a frente dos convidados e abriu os braços.

– Amigos, companheiros de trânsito. Estamos em um lugar sagrado. A morte abre a porta secreta para outra dimensão. Vamos nos dar as mãos, cantar e dançar para celebrar com Dolores a vida que a espera.

As tias se entreolharam.

– Podemos cantar “Segura na mão de Deus”, sugeriu a tia do Meier.

– Vai ser a música que a Cecília quiser – eu disse.

– Mas e se a gente não souber a letra? – perguntou a tia de Vila Isabel.

– A gente aprende – disse o tio João.

Os Albuquerque se levantaram. Formamos uma roda em torno do caixão, e acompanhamos de mãos dadas os mantras indianos que Cecília entoava de olhos fechados. Nossas vozes reverberavam na pequena capela, enquanto eu pensava que, como minha mãe, estava começando de novo. Queria pertencer às duas mulheres de cabelos negro e cinza, e não mais aos primos que eu só via no Natal, e às tias que abandonaram minha mãe depois que ela foi abandonada pelo meu pai.

Essa é outra boa Polaroid, embora escurecida nas margens: Nós dois deixando o cartório com a aliança tinindo na mão esquerda, eu de terno e gravata, Marília com um vestido creme de saia rodada que ela comprou em um brechó. Eram onze da manhã de uma quinta-feira de sol, estávamos na esquina da Rio Branco com a Rua do Ouvidor. “Eu te dou uma flor em troca de uma benção”, Marília dizia, distribuindo os lírios do buquê. Nós nos acomodávamos sob as mãos de porteiro, dono de banca, atendente de lanchonete, camelô e taxista. E foi ali, recebendo os melhores desejos da massa generosa de cariocas, que notei que uma outra vida se formava, indesejada, inevitável.

Era a vida que eu não teria, por ter me casado aos 24 anos com a primeira namorada.

O divórcio já tem envelope. Está camuflado junto à papelada de imposto de renda, na mesa do canto do quarto. Quem preparou foi meu tio João. Fui ao escritório dele em janeiro, depois de outra briga idiota com Marília. Eu havia colocado as crianças para dormir, e quando voltei para a cozinha ela arrumava a louça na máquina. Uma cuia por cima da outra, talheres com nacos de comida, pratos jogados de qualquer jeito.

– Assim não vai lavar direito, disse. – Tirei a louça da máquina para arrumar novamente.

– Você é um perfeccionista.

– É que não adianta colocar a louça sem tirar os restos de comida.

– Por que você tem que refazer tudo o que eu faço?

– Não é isso, Marília, é que assim…

– Por que nunca nada é bom o suficiente para você?

– Vai começar.

– Odeio quando você diz vai começar.

– Existe algo que você goste em mim?

Marília se aboletou do meu lado de braços cruzados, tronco subindo e descendo de acordo com meus movimentos arrumando a louça na máquina.

– Que bonito, ela disse. Colocar os pratos na máquina em tom degrade. Dá até pra tirar foto e botar no Instagram.

– Você não fez direito.

– Você tem a ilusão de que uma casa perfeita é sinal de uma vida sob controle.

– Ninguém pode ser feliz nessa bagunça. Essa sala parece uma rua do Saara, a gente nem sabe para onde olhar.

– Com criança em casa você quer o quê? Não é isso que vai melhorar o casamento. Sabe o que faria toda a diferença, Antônio? Dar um sorriso durante o jantar. A boca abrindo assim, ó.

Ela forçou meus lábios para cima com as mãos. Ganhei as feições de um palhaço triste com uma mulher dependurada no rosto.

– Quem consegue passar um fim de semana inteiro sem dizer uma palavra? Antônio. Quem reclama que as crianças acordam cedo aos domingos? Antônio. Quem não consegue se divertir nem quando brinca com elas?

Fiz alguma conexão esdrúxula para acusá-la de estudar há três anos para um doutorado inútil. Ela desenterrou meus traumas de infância. Depois daquilo nos atacamos por meia hora. Havíamos chegado a um estágio em que nem importava o que o outro falava. Mais ou menos assim: Eu dizia pano de prato e ela entendia coador, Marília dizia tacape e eu perguntava – secou? Era esse nosso nível de entendimento.

Tio João me recebeu com um abraço, perguntou como estavam as crianças. Disse que Manu havia perdido o primeiro dente, ele se mostrou sinceramente surpreso. Nos sentamos à mesa de reunião, eu não me alonguei. De novo ele se mostrou surpreso.

– Você quer se separar da Marília?

– Da Marília.

– Da Marília?

– Incompatibilidade de gênios.

– Você e Marília?

– Ela pode ficar com tudo, disse. Pago o que for de pensão, vejo as crianças nos fins de semana.

Tio João tirou os óculos e inclinou o corpo sobre a mesa.

– Toninho, disse. Eu gosto muito de você, e tento estar por perto depois que o seu pai sumiu. Vou te dizer o que eu não digo para os clientes. Há casamentos que carregam em si a contradição da vida. Estão fadados a morrer no minuto em que nascem. Outros, não. Tanta gente já sentou nessa cadeira que você está, eu já ouvi tantas histórias que eu consigo saber a diferença. No seu caso, você vai estar trocando a unha encravada no pé direito pela unha encravada no pé esquerdo.

Ele permanecia me olhando de um jeito que me deixou encabulado.

– E não vai dar para se tratar, porque a sua ex-mulher vai ficar com o alicate.

O que me leva de volta à Polaroid da minha prisão, a Polaroid da quarentena. Estamos na terceira semana. Os dias ganharam a rotina dos tempos anormais. Gosto de poder trabalhar de camiseta, de não ter que me submeter ao engarrafamento diário ou perder tempo com reuniões estúpidas. Pelas manhãs eu me levanto no último minuto aceitável para um dia da semana. Marília já está na sala, brincando com as crianças. Passo pelas três, pego um café na cozinha e volto para o quarto. Ligo o computador, e já são dez, vinte mensagens para responder. Almoço um sanduíche e sigo trabalhando. Às vezes olho para o envelope do divórcio, camuflado junto à papelada de imposto de renda. Planos de divórcio com envelope indicam estágio avançado, movimento. É o oposto da aliança de noivado. Às seis e meia eu desligo o computador. Tomo um banho, brinco um pouco com as crianças. Depois do jantar, e de colocar a Manu e a Gabi na cama, arrumamos juntos a cozinha. Já faz tempo que não brigamos, e fazemos bem essa coreografia doméstica, de lavar os pratos e as panelas, deixar a cozinha limpa e vazia, preparada para o dia seguinte. Depois Marília lê um livro, eu jogo videogame.

Eu trabalho como diretor de operações de uma firma de engenharia. Sou o braço direito dos donos, três irmãos que se intercalam nas férias e nos dias que vão ao escritório. Comecei na empresa como estagiário, e no ano passado ganhei placa comemorativa por 15 anos de firma. Nos reunimos por zoom uma vez ao dia, eles me perguntam sobre os projetos.
Na reunião de hoje me demitiram.

É que… com as obras paradas… não está fácil para ninguém… Você vai receber todos os benefícios… quem sabe quando tudo melhorar…

Permaneci parado em frente à tela por muito tempo depois da notícia. As quarenta horas por semana durante onze meses por ano haviam deixado de ser um expediente para se tornar a maior parte de quem eu era.

Em algum momento da tarde, Marília entrou no quarto com um sanduíche.

– O que aconteceu?

– Eu fui… demitido.

– Ah, Antônio… – Ela colocou o sanduíche sobre a mesa e me abraçou – Vai aparecer outra coisa.

– O Rio de Janeiro está falido. Depois da pandemia o mundo vai entrar em recessão.

Marília afastou o corpo e me encarou.

– Nós vamos passar por isso. E vamos comemorar a virada com champanhe.

– Agora não vamos ter dinheiro nem para uma Skol.

– Com você eu tomo até o vinho de tempero.

– Não me abandone, Marília, pelo amor de Deus não me abandone.

– Que ideia mais boba, ela disse, voltando a me abraçar.