Gritos e Murmúrios

Foi um grito o lançamento de MURMÚRIOS DA TERRA, de Anna Mariano, no salão do Instituto Ling, em Porto Alegre, na sexta-feira (17/07). Um grito que despertou o leitor gaúcho e a crítica para o romance publicado pela Globo. Mais de 250 exemplares vendidos, dos 300 autógrafos concedidos; muita gente chegava com o exemplar em mãos. A mídia do estado está repleta de matérias sobre MURMÚRIOS. Diz a resenha de Juliana Bublitz no portal GZH: “Da última fronteira agrícola, nasce o romance que faltava sobre a saga da soja no Brasil.” Legítima herdeira de Érico Veríssimo, Anna não se limita a recriar o mestre; chega com linguagem própria para comunicar a subjetividade feminina contemporânea e o sentido histórico de inexplorados movimentos sociais. Basta ver a voz da narradora tateando a memória na antológica abertura:

“Escuro como o asfalto que, ano a ano, vem cobrindo a poeira das estradas, assim estava Vale Vêneto na tarde em que me deitei com Eugenio Sterzi pela primeira vez. O sol ainda pintava de luz o topo dos morros, mas lá embaixo, na vila, um manto de sombras já se espalhava. Havia uma festa – Corpus Christi, talvez, era inverno – e a banda Giuseppe Verdi tocava. Por ter bebido demais, ou por pensar que não passaríamos de alguns beijos, Eugenio não recuou quando tomei sua mão e o guiei até o terreno atrás do colégio das freiras…

“Não foi boa nem ruim aquela primeira vez: o meu desejo, uma dor fina, um desconforto, e logo tudo o que havia era o cheiro do capim que nossos corpos haviam amassado e a pergunta: que nome darei a esse filho? Tinha certeza de que ficara grávida. Não fora amor o que me levara a deitar com Eugenio, não fora nem mesmo paixão. A urgência no meu ventre era Pierina, a minha Pina, com desejos de nascer.”